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Comprei um terreno por causa da bolha da IA

16 de agosto de 2026 Uncategorized

Comprei 1200 metros quadrados no interior de Minas. Já está cercado. Vou construir uma casa lá, e embaixo dela um bunker.

Antes de me classificar, me dá cinco minutos. Não é drama, eu juro. No fim deste texto eu te mostro a conta, e ela é a coisa mais chata que você vai ler hoje: é uma decisão em que eu não tenho como perder.

A bolha existe, e não é isso que me preocupa

Que tem bolha, todo mundo já sabe. Empresa queimando dinheiro numa velocidade que não se explica pela receita, data center sendo construído com capital que ainda não voltou, avaliação que só fecha se o futuro for perfeito. Isso já foi escrito por gente muito melhor do que eu.

O que eu não vejo quase ninguém perguntando é a parte que interessa: quando isso ajustar, o que acontece comigo? Não com a Nvidia, não com o fundo de investimento. Comigo, com você, com o cara que tem uma empresa pequena e usa IA todo dia para dar conta do trabalho.

Eu montei quatro cenários. Não são profecia, são hipóteses com sinal: cada uma vem com o que eu observaria para saber que ela é a que está acontecendo. Se em cinco anos nenhum dos sinais aparecer, eu volto aqui e escrevo que errei.

Cenário 1. O Resgate

As empresas admitem que o modelo de negócio não fecha sozinho, e o Estado entra. Não por bondade: entra porque a essa altura a coisa virou infraestrutura estratégica, como energia, como estrada, como telefonia foi um dia. Vem subsídio, vem licitação de fornecimento, vem licença para operar. E você passa a receber o que for fornecido.

Aqui tem uma inversão que eu demorei a enxergar, e ela é o ponto mais importante deste texto: isso não é a bolha estourando, é a bolha sendo salva. Empresa nenhuma declara “meu negócio não fecha” como quem se rende. Declara como quem negocia. Virar concessão regulada é o melhor desfecho possível para quem já está dentro: margem garantida, entrada de concorrente novo barrada por licitação, e o risco pago por você, via imposto.

Se você acha que o Estado não conseguiria controlar uma coisa que é só um arquivo, repara no que já é controlado sem nenhum monopólio de distribuição: você não sobe num avião que você mesmo construiu sem licença e certificado, você não levanta uma casa sem alvará e projeto aprovado, a água não é sua, e o minério que estiver debaixo do seu terreno pertence à União. Autonomia já é território licenciado. Faz tempo.

E não se proíbe o arquivo, isso já foi tentado e perdido nos anos 90 com criptografia. Se vier, vem pelo outro lado: proíbe-se a máquina que roda o arquivo. Videogame ganhou a guerra da pirataria que o PC perdeu, e ganhou porque a chave foi morar dentro do chip, assinada. A tecnologia para isso já está no seu bolso: o aplicativo do seu banco já se recusa a abrir em celular destravado.

O que eu observaria: computador de uso geral perdendo a capacidade de rodar código não assinado. Atestação de dispositivo sendo exigida por serviço que não tem justificativa de segurança nenhuma. Licença para operar modelo acima de um certo tamanho. Se o PC livre morrer, o resto vem junto.

O que acontece comigo: o que eu tenho em casa vira clandestino. Não deixa de existir, passa a ser coisa que não pode.

Cenário 2. A Concentração

A bolha estoura de verdade, e o que sobra concentra. Aqui eu preciso ser honesto com uma objeção que me fizeram e que eu não sabia responder: quando bolha de infraestrutura estoura, o insumo costuma ficar mais barato, não mais caro. Os trilhos da ferrovia não sumiram, mudaram de dono por centavos. A fibra enterrada na bolha das pontocom foi comprada a preço de nada e barateou a internet dos anos 2000.

Então o cenário só fecha com um mecanismo, e o mecanismo é este: o que barateia é a inteligência do ano passado. O modelo de fronteira nunca fica barato, porque ele é sempre o que está sendo construído agora. E é a fronteira que decide quem ganha a licitação, quem descobre a molécula, quem faz o preço.

A segregação, então, não é por acesso. É por safra. Ninguém fica sem, todo mundo fica atrasado, para sempre. E atrasado perde do mesmo jeito que excluído, só que sem poder culpar o portão.

Nesse mundo, quem tem a sua própria IA rodando em casa é o artesão. E aqui eu já ouvi a piada: minha padaria de fundo de quintal contra a maior fábrica de pão do Brasil. É isso mesmo. Só que a padaria de bairro não morreu, e não morreu porque ela vende uma coisa que a fábrica não consegue vender.

Só que tem um detalhe que eu preciso admitir: ninguém paga mais caro por resposta artesanal. Resposta pior de modelo local é só uma resposta pior. O que se vende não é a inteligência, é o que você faz com ela, mais a confiança, mais o fato de que o dado do seu cliente nunca saiu da sua casa. Privacidade é o terroir da IA local.

O que eu observaria: a distância entre o que é de graça e o que é de ponta aumentando ano a ano. Consolidação, empresa comprando empresa. E o preço do acesso de fronteira subindo enquanto o modelo do ano passado vira brinde.

O que acontece comigo: o que eu tenho em casa vira oficina.

Cenário 3. A Guerra

A rachadura da internet já começou faz uns quinze anos e quase ninguém chamou pelo nome: rede nacional na Rússia, firewall na China, rede própria no Irã, lei de localização de dado se espalhando pelo mundo. Some a isso IA treinada para invadir e para espionar, e você tem conflito permanente entre países usando empresa privada como campo de batalha.

A parte que me assusta não é o ataque. É que atribuir um ataque cibernético é lento, técnico e contestável, e o público não tem como verificar nada disso a tempo. Ou seja: é o pretexto perfeito. Você atribui a quem quiser, no dia que quiser, e o ataque digital justifica a resposta física. Isso não depende de nenhum avanço tecnológico. Está disponível hoje.

Vão te dizer que é a nova corrida armamentista, e eu ia dizer também. Mas a comparação com a bomba não fecha, e o motivo é interessante: urânio é escasso e visível. Enriquecer exige prédio, centrífuga, energia, coisa que satélite enxerga e inspetor visita. Peso de modelo é arquivo, e não existe inspeção de arquivo. Por isso a corrida de verdade não é pelo modelo, é pelo silício: fábrica de chip, litografia, o parque de placas. É a única parte da cadeia que é escassa e visível.

E olha que já estão tentando o outro caminho: o controle de exportação de chip existe faz anos, e em 2026 os Estados Unidos passaram a tratar o próprio modelo como tecnologia controlada, inclusive o acesso por API. Vai ser interessante acompanhar como se fiscaliza a exportação de uma coisa que cabe num HD.

E a corrida nuclear estabilizou por uma coisa que aqui não tem: lá o ataque é atribuível, catastrófico e dissuadível. No digital não é nenhum dos três. Sem atribuição não há dissuasão, sem limiar não há linha vermelha. O resultado não é uma corrida com fim, é atrito permanente. Que é, basicamente, o mundo em que a gente já vive.

Sobre o pior desfecho, eu vou ser mais cuidadoso do que eu gostaria. A ideia de uma IA assumindo o comando de um ataque nuclear é boa para filme e ruim para argumento: comando nuclear é o sistema mais deliberadamente desconectado que a humanidade construiu, e isso é projeto, não atraso. O risco real é outro e é pior: a máquina não aperta o botão, ela corrompe a decisão. Alerta antecipado, leitura de satélite, janela de decisão comprimida de minutos para segundos. Em 1983 um oficial soviético chamado Stanislav Petrov ignorou um alerta automático de ataque porque achou estranho. Eu não tenho certeza de que a próxima versão dessa cena tem um Petrov, nem de que ele teria tempo.

Pra desdramatizar: o valor deste cenário está todo antes do cogumelo. A rachadura, o falso ataque, o pequeno negócio virando dano colateral de briga entre países. Isso é observável e gera decisão. O fim do mundo não gera decisão nenhuma.

O que eu observaria: localização obrigatória de dado avançando, ataque sem atribuição sendo usado como justificativa política, controle de exportação de silício apertando.

O que acontece comigo: o que eu tenho em casa vira abrigo, no sentido literal.

Cenário 4. O Tédio

Este é o mais provável, e é o que mais atrapalha a minha própria história. Vou escrever assim mesmo.

A bolha murcha devagar. Algumas empresas quebram, outras são compradas, o preço cai, a tecnologia vira infraestrutura banal e some dentro dos produtos, do jeito que a internet sumiu dentro de tudo depois de 2001. Ninguém é escravizado, ninguém é salvo. Cinco anos depois a gente olha para trás e acha graça do tamanho do barulho.

Foi assim que terminaram quase todas as bolhas de infraestrutura da história. Se eu tivesse que apostar em um, eu apostaria neste.

E eu preciso dizer isso em voz alta, porque é o teste da minha honestidade neste texto: três cenários dramáticos escritos por um cara que já comprou o terreno tem cara de raciocínio encomendado para justificar uma decisão já tomada. Se eu não colocasse o cenário chato aqui, com a maior probabilidade das quatro, você teria todo o direito de desconfiar do resto.

O que eu observaria: preço caindo de forma consistente, modelo virando peça de prateleira, o assunto sumindo do noticiário e aparecendo na fatura como item comum.

O que acontece comigo: eu tenho uma casa automatizada muito boa.

O que os quatro têm em comum

Repara no que aconteceu enquanto eu escrevia isso.

No Resgate, o Estado salva a bolha e ela vira concessão eterna. Na Guerra, a economia militar salva a bolha, porque demanda de guerra é o comprador mais confiável que existe. Na Concentração ela estoura de verdade, mas o que machuca não é o estouro, é o que se organiza em cima dos escombros. No Tédio ela murcha e a vida segue.

Ou seja: em nenhum dos quatro o estouro é o que me fere. O que fere é o que fazem para impedir que ele aconteça, ou o que se monta depois que ele acontece.

É por isso que a série se chama assim. Você não sobrevive ao estouro da bolha. Você sobrevive ao que fizerem para ela não estourar.

E tem uma coisa que eu só vi depois de escrever os quatro: em todos eles apanha o mesmo sujeito. No Resgate ele é o clandestino. Na Concentração ele é o artesão espremido. Na Guerra ele é o dano colateral. É sempre o pequeno, o que opera sozinho ou quase, o que não tem departamento jurídico nem contrato de fornecimento. Se você chegou até aqui lendo, é bem provável que seja você.

Agora a conta

Aqui está por que eu comprei o terreno, e por que eu acho que é a decisão mais sem graça que eu já tomei.

Olha o que a mesma construção faz em cada cenário.

No Resgate, ela é clandestinidade: eu tenho o que não pode.

Na Concentração, ela é oficina: eu produzo fora do monopólio.

Na Guerra, ela é abrigo: eu sobrevivo.

No Tédio, ela é uma casa automatizada com a IA cuidando da piscina, das plantas, do portão e dos gatos.

Não existe cenário em que eu perco. O meu prejuízo máximo é ter construído a casa que eu ia construir de qualquer jeito, com uma automação melhor que a média e uma história boa para contar. O ganho, nos outros três, não tem substituto e não dá para comprar depois.

Isso tem nome, e não fui eu que inventei: é aposta assimétrica. Perda limitada, ganho desproporcional. É o contrário do que faz a maioria das pessoas, que arrisca muito para ganhar pouco.

E tem uma parte que não dá para adiar, que é a que mais me tira o sono. Hardware travado não se conserta para trás. Toda placa que já foi vendida continua sem tranca, para sempre. Se a fechadura vier, ela vem no que for fabricado depois. Quer dizer que a única máquina livre é a que eu comprar antes. É por isso que eu estou montando bancada agora, e não daqui a três anos quando a obra estiver pronta.

O que eu vou fazer, em público

Toda quinta, ao vivo. Do primeiro parafuso ao último.

Não vou começar pelo bunker, vou começar pela bancada: rodar IA na minha própria máquina, apanhar dela, descobrir que um modelo pequeno treinado para conversa é melhor que um grande para falar comigo e pior para programar, e contar isso com o número na tela. Depois sensor, lâmpada, câmera, o portão, a piscina. A casa onde eu moro hoje é o protótipo da casa que eu vou construir.

Eu tenho uma máquina melhor que a média, e vou dizer a configuração dela em toda medição. Não é vantagem, é o contrário: se na minha engasgar, você já sabe o que esperar da sua.

E quando não funcionar, eu vou mostrar não funcionando, com o parâmetro do lado. “Não consegui” não é conteúdo, é desabafo. “Não rodou com esta configuração, neste tempo, neste modelo” é informação, e é o que eu queria ter encontrado quando comecei.

Primeiro episódio: quinta, 10 de setembro, 20h. Garanta seu lugar e receba o lembrete.

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